Biocombustíveis são desastre ambiental
PARA ALÉM DO ÓLEO DE COZINHA USADO, NÃO EXISTE BIOCOMBUSTÍVEL SUSTENTÁVEL
Acontece que a nova geração de biocombustíveis é mais um desastre ambiental
Por George Monbiot
Publicado no jornal GUARDIAN a 12 de Fevereiro de 2008
Pode ser que eles agora prestem atenção. Começaram por ignorar os ambientalistas e até os geólogos. Irão agora ignorar também os capitalistas?
Um relatório publicado na semana passada pelo Citibank e até agora ignorado pela comunicação social identifica “dificuldades genuínas” em aumentar a produção do petróleo “particularmente depois de 2012”. (1) Embora nos próximos quatro anos comecem 175 projectos de grandes perfurações, há o “ receio de que a maior parte deste aumento seja neutralizada por um declínio muito rápido na actual oferta”. A indústria do petróleo tem feito pouco da ideia de que a produção pudesse atingir o seu máximo e começar a declinar, mas as “provas recentes de falhas em aumentar a produção tendem a passar o ónus da prova para os produtores“ uma vez que têm sido incapazes de responder ao aumento maciço dos preços. “A produção global total de hidrocarbonetos líquidos estabilizou desde meados de 2005 ligeiramente acima de 85 milhões de barris por dia.”
O problema é complicado como sempre pela recusa do cartel da OPEP em aumentar a produção. O que mudou, diz o Citibank, é que os países não OPEP já não conseguem reagir ao aumento dos preços. Significara isto que a produção nestes países atingiu o pico? Se sim, o que tencionam fazer os nossos governos?
Há nove meses atrás solicitei ao governo britânico a sua avaliação das disponibilidades mundiais de petróleo. Os resultados espantaram-me: não havia nenhuma.(2) O governo confiava exclusivamente numa fonte externa: um livro publicado pela Agencia Internacional da Energia (AIE). A omissão tornou-se mais estranha ainda quando li o livro e descobri que não passava de uma polémica básica, onde se apelidavam de “profetas da desgraça” todos os que duvidassem do futuro do abastecimento do petróleo e isto sem apresentar dados consistentes que apoiassem tais conclusões.(3) Embora os membros da OPEP tenham um grande interesse em exagerar as suas reservas a fim de melhorar as suas cotas, ainda assim a AIE confiava nessas avaliações sobre o futuro do abastecimento petrolífero.
Na semana passada tentei de novo e recebi a mesma resposta: “o governo concorda com a análise da AIE de que as reservas globais de petróleo (e gás) são suficientes para sustentar o crescimento económico no futuro previsível”.(4) Talvez o governo não tenha notado que a AIE está agora a recuar. O Finantial Times diz que a AIE “admitiu que tem prestado pouca atenção aos estrangulamentos do fornecimento enquanto se acumulam evidências de que o petróleo está a ser descoberto mais lentamente do que se esperava… o abrandamento na velocidade de descoberta de novos poços é um segredo ciosamente guardado pela indústria, e a AIE está preocupada de que os dados de que actualmente dispõe possam não estar correctos”. (5) O que acontece se os números estiverem realmente errados? E se aquilo que a OPEP anda a dizer for uma grande mentira? Que planos de contingência tem o governo? A resposta é zero vírgula nada.
A Comissão Europeia, por seu lado, tem um plano, e é um desastre. Ela reconhece que “a dependência do petróleo no sector dos transportes… é um dos mais sérios problemas de segurança no fornecimento de energia que a UE tem pela frente”.(6) Para diversificar as fontes de combustível, e também para diminuir as emissões de gases com efeito de estufa, a Comissão ordenou aos Estados Membros que em 2020 o petróleo dos nossos carros inclua 10% de biocombustíveis. Isto não resolverá o problema da falta de petróleo, mas vai ajudar a minorá-lo por criar um problema ainda maior.
Para ser justo para com a Comissão, ela reconheceu agora que os biocombustíveis não são a panaceia universal. No texto preliminar da Directiva estabelece-se que eles não devem ser produzidos por destruição de floresta tropical virgem, pradarias primordiais ou pântanos e turfeiras, pois isto iria aumentar a emissão total de gases com efeito de estufa. Também não deve ser prejudicado nenhum ecossistema rico em biodiversidade para produzir tais biocombustíveis.(7)
Parece bem, mas há três problemas. Se os biocombustíveis não podem ser produzidos em habitats virgens, ficam confinados à terra agrícola existente o que significa que sempre que enchermos o depósito do carro estaremos a tirar comida da boca das pessoas. Isto, por sua vez, vai conduzir ao aumento do preço da alimentação, o que estimula os produtores a destruir os habitats selvagens – florestas e tudo o resto – para os produzirem. Poderemos ficar descansados com a moralidade das nossas leis, mas os impactos vão ser os mesmos. Não há saída para isto: num planeta finito com alimentos limitados ou competimos com os famintos ou cultivamos mais terras.
O terceiro problema é que a metodologia da Comissão acabou de ser virada do avesso por dois novos estudos.(8,9) Publicados na revista Science, eles calculam os custos totais de emissões carbono para a produção de biocombustíveis. Quando o uso de novas terras (causada, quer directamente, quer pelo deslocamento das culturas alimentares) é levado em consideração, todos os biocombustíveis mais comuns causam um aumento maciço nas emissões.
Mesmo a fonte mais produtiva – cana do açúcar cultivada na savana do Brasil - cria um débito de carbono (devido à queima da biomassa que lá existia, que teve de ser eliminada para dar lugar à nova plantação) que leva 17 anos a equilibrar. Como as reduções maiores de carbono devem ser feitas já agora, o efeito global desta cultura, para já, é o de exacerbar as alterações climáticas. A fonte pior – óleo de palma produzido em território roubado à floresta tropical húmida assente em depósitos de turfa - produz um débito de carbono de cerca de 840 anos. Mesmo quando se produz etanol a partir do milho cultivado na terra arável não usada (que na UE se chama “em pousio” e nos Estados Unidos “reserva de conservação”), são necessários 48 anos para neutralizar as emissões iniciais de carbono. Os factos mudaram. Irá a política segui-los?
Muita gente acredita que há uma maneira de evitar estes problemas: produzindo biocombustíveis não das próprias colheitas mas dos seus resíduos – se o combustível puder ser feito de palha, ervas ou lascas de madeira, não há implicações para o uso da terra e não existe o perigo de aumentar a fome. Até recentemente eu próprio acreditava nisso.(10)
Infelizmente a maior parte dos “desperdícios” agrícolas não são nada disso. Esse é o material orgânico que mantém a estrutura do solo, segura nutrientes e armazena carbono. Um estudo encomendado pelo governo americano propõe que 75% dos resíduos agrícolas anuais sejam usados para fins energéticos.(11) Segundo um artigo publicada na Science do ano passado, essa remoção dos resíduos das colheitas pode multiplicar por cem a taxa de erosão do solo.(12) Por outras palavras, o nosso vício do carro pode levar tanto a um pico do petróleo como a um pico do solo.(13)
Remover as sobras das culturas significa substituir os nutrientes que elas contêm por fertilizantes sintéticos, o que por sua vez vai conduzir a mais emissões de dióxido de carbono. Um estudo recente de Paul Krutzen, laureado com o Prémio Nobel, sugere que as emissões de óxido nitroso (um gás com efeito de estufa 296 vezes maior que o do CO2) devidas aos fertilizantes azotados vão absorver todos os ganhos que os biocombustíveis possam permitir, mesmo sem ter em conta as consequências da alteração de uso da terra.(14)
Também não resolve o problema fazer culturas especiais de segunda geração, como árvores ou gramíneas: tal como as outras culturas energéticas elas deslocam, quer a produção alimentar, quer as emissões de carbono. Um dos estudos publicados na Science mostra que cultivar certas gramíneas cria um débito de carbono de 52 anos. Algumas pessoas sugerem a sintese de biocombustíveis de segunda geração a partir de erva de prados naturais ou de lixo municipal, mas já é bastante difícil a produção a partir de um único material; mais difícil ainda será fazer seja o que for a partir de uma mistura. Para além do óleo de cozinha usado, não existe um biocombustível sustentável.
Todas estas soluções retorcidas servem apenas para evitar uma mais simples: reduzir o consumo de combustíveis nos transportes. Mas isto requer a utilização de uma matéria prima diferente. Infelizmente, já há algum tempo que as reservas globais de coragem política parecem ter atingido o seu pico.
|in stopogm.net





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